Com o distanciamento social para a prevenção do novo COVID-19, o setor teatral foi um dos primeiros a sair de cena – mas também foi um dos primeiros a se movimentar através de lives e campanhas de incentivo para que as pessoas permaneçam em casa.

Ainda que, sem qualquer previsão de quando essa situação irá se normalizar, artistas e produtores começaram a pensar em maneiras de adequar-se à nova realidade e poder levar a arte onde o público está. Dessa forma, a partir das lives e das interpretações poéticas dos clássicos literários, surgiram projetos que estão trazendo as artes cênicas também para o ambiente virtual, o que tem resultado em experiências únicas para os artistas e o público.

A peça Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, do dramaturgo romeno Matéi Visniec, foi adaptada pelo diretor de cinema e publicidade Bruno Kott. Pensada para ser uma peça híbrida entre teatro e vídeo. Sua estreia oficial foi no dia 15 de maio de 2020 pelo Sympla Streaming, com elenco formado por Nicole Cordery e Mauro Schames, cada um em suas respectivas casas.

Quer saber como foi essa experiência de fazer uma peça de teatro no formato online? Confira as dicas e aprendizados do diretor Bruno Kott:

Como foi realizar um evento cultural no formato online?

Pandas: a experiência do teatro online em 6 passos Pandas ou Era uma Vez em Frankfurt | Divulgação

Sabemos que a vivência do teatro presencial é insubstituível, mas as apresentações online têm sido uma boa alternativa para esse momento de isolamento social. “Eu acredito que o streaming já iria acontecer. Isso é natural e faz parte do evolução das plataformas. Mas acho que tudo foi acelerado com a questão da pandemia”, conta Bruno.

E trazer Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt para o ambiente online foi uma forma de dar continuidade ao trabalho que já vinha sendo feito pela equipe da peça.

“Foi uma experiência nova. Nunca tinha feito isso antes, mas ao mesmo tempo a nossa proposta é muito pequena, sou eu e dois atores apenas. E o fato de eu ser diretor não significa que eu tenha um poder hierárquico diferente. Então, a nossa troca se dá de forma muito democrática. A gente vai conversando e entendendo o que queremos dizer juntos. Então, o que a gente quer dizer com essa peça nesse momento? Porque se a gente alinha esse discurso, o resultado disso se tem naturalmente”.

1. Primeiro passo: perder o preconceito

Quando começaram a surgir os primeiros espetáculos online, também surgiram muitas críticas sobre o meio e a forma como o conteúdo estava sendo distribuído para o público.

“Eu percebo ainda um preconceito grande com relação à ferramenta de streaming. Muita gente fala que não é teatro, e tudo bem. Não é teatro, teatro é uma outra coisa. Mas é uma ferramenta de trabalho que nós temos agora e que pode vir a se tornar uma outra via ao encontro do ao vivo, o que é muito legal. E isso é importante não só para a área de cultura, mas para nós como seres humanos em isolamento”, fala Bruno.

Para o diretor, é importante que esse preconceito com o streaming seja deixado de lado para entender que uma coisa não irá substituir a outra. O teatro da forma como conhecemos não irá acabar. Neste momento, as peças e espetáculos online são uma forma de manter e levar a cultura até o público. “Isso não é um fim. A plataforma é só o meio de encontro, ela não é o fim de nada. Ela não vai ocupar o lugar de nada, ela não tem esse poder. Ela está aqui para nos receber, seres humanos. E o ser humano que é o fim das coisas”, acrescenta.

Para ajudar a conhecer melhor o ambiente online, o diretor dá uma dica: primeiro, você pode chegar na plataforma como público, e depois ir entendendo como ela pode dialogar com o que você faz, com o seu trabalho, e entender onde e como você pode utilizá-la.

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2. A escolha da plataforma de streaming

A partir disso, uma das primeiras coisas a fazer na hora de organizar um espetáculo online é pesquisar e decidir qual será a plataforma usada. Para Bruno, realizar peças de teatro e eventos culturais no streaming é diferente de fazer uma live, por exemplo.

“O Zoom foi a ferramenta que nos proporcionou algo mais próximo entre público e artista, já que eles estão juntos no mesmo lugar e isso é muito importante. Ter o público e o artista no mesmo lugar é diferente de simplesmente fazer uma live, onde as pessoas estão distantes dos artistas, elas podem comentar de forma muito sutil e simples, mas não conseguem estar no mesmo ambiente”.

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3. Planejando o evento online: custos reduzidos

Pensar na parte artística da peça é importante, mas é fundamental não deixar de lado outros aspectos da organização do evento – como a parte financeira, por exemplo. Nesse caso, o diretor notou algumas diferenças entre planejar um evento presencial e um evento online:

“No evento presencial, não é possível planejar sem nenhuma fonte de investimento, ele precisa de dinheiro para ser organizado. Já o evento online, pode surgir de uma outra contrapartida. Ele é mais acessível e você consegue alcançar mais pessoas. Como você está em casa, acredito que seja mais fácil organizar um evento online do que um evento presencial”, conta Bruno.

Outro ponto positivo das produções online é que você consegue fazer testes envolvendo menos ou quase nenhum custo antes de fazer a grande estreia do seu espetáculo.

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4. A importância da divulgação

A divulgação é um dos pontos mais importantes na hora de planejar um evento – e isso não é diferente com os eventos online. Ela ajuda a atrair o público para a sua produção. No caso da peça Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt foram usadas duas estratégias: as redes sociais e uma assessoria de imprensa.

Para Bruno, as notícias e críticas veiculadas na imprensa ajudam na visibilidade da produção. “As críticas que saíram são todas muito positivas, e isso atrai o público”, conta o diretor.

Além de divulgar as próximas datas da peça online, eles também usam as redes sociais para interagir com o público e publicar os feedbacks dos participantes. “Em nossas redes sociais, tivemos um retorno maravilhoso. Na página da peça no Instagram postamos as mensagens e os áudios que as pessoas nos enviam. Da nossa área artística, recebemos um retorno de críticas muito positivo, assim como do público”.

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5. Vendendo os ingressos

Na primeira temporada online de Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt, foram criados dois tipos de inscrição para a peça: o ingresso gratuito e um no valor de R$ 15,00, sendo que esse valor foi revertido para um fundo de técnicos e artistas de teatro que não estão conseguindo trabalhar durante a pandemia. E esse modelo “funcionou muito bem, todas as sessões lotaram”, segundo Bruno.

“Nós não monetizamos nada nessa primeira temporada porque entendemos que o país está passando por um problema econômico grande. E, além de tudo, existe essa resistência ao meio, ao streaming.”

Agora que o público já está familiarizado com a plataforma, na próxima temporada parte do custo do ingresso será revertido para a própria equipe da peça. Depois, eles pretendem avaliar como foi a recepção do público e se vale a pena manter essa estratégia.

6. Use os recursos do streaming a seu favor

Outra dica importante é entender os recursos da plataforma de streaming e como eles podem ser usados durante a performance. “No streaming tudo tem um outro tempo. Aqui existe um distanciamento físico e, por isso, eu acabei usando diversos recursos: eu compartilho imagens, objetos, luzes e sons. Assim, a gente usa o melhor da plataforma a nosso favor”, relata Bruno.

Quais foram os resultados dessa experiência?

Cada sessão de Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt tem um público pequeno de no máximo 25 pessoas, e todas tiveram os ingressos esgotados. Segundo o diretor, eles optaram por um público menor, pois acontece no final do espetáculo um debate entre artistas e público e eles gostam de ouvir cada um dos participantes.

“Não adianta chegar em uma plataforma nova, querer lotar a casa e por alguma razão as pessoas não conseguirem acessar e saírem frustradas, porque assim elas nunca mais vão voltar. Nós precisamos ter o cuidado da formação de público porque uma pessoa que sai dali sem curtir a experiência, vai levar isso para outras pessoas e aquilo passa a ser algo negativo. Fazemos para 25 pessoas justamente por isso. Eu converso com todas no início da sessão e ajudo a configurar. Vou conversando de forma muito íntima para formar esse público, pois ele não é só para a gente, é o público que também vai assistir outras coisas online”, reforça.

Para Bruno, não existe uma fórmula certa para fazer uma produção de teatro online.

Porém, é incrível ver como a internet tem a capacidade de alcançar pessoas que antes não teriam a possibilidade de ver uma produção cultural como essa ao vivo. Com os eventos online, não existe barreira geográfica. “Não precisamos estar restritos ao nosso meio, nós podemos chegar no Brasil inteiro e até em outros países. Nas nossas sessões tivemos pessoas de Natal, Teresina, Minas, Rio de Janeiro e isso é muito legal.”

Gostou das dicas do Pandas… ou Era uma Vez em Frankfurt? Que tal colocá-las em prática? Conte com a Sympla para criar a sua peça de teatro online!